UMA CÂMARA FIXA NA PRAÇA MAIDAN

Paulo Moura, www.publico.pt, 30.10.2014

Em Maidan, o documentarista Sergei Loznitsa dá a ver a luta heróica que o povo ucraniano travou contra o regime pró-russo de Ianukovitch entre Dezembro de 2013 e Fevereiro deste ano. Um filme sem julgamentos nem protagonistas, mas que nem por isso deixa de ser parcial: “Um documentário, como qualquer obra de arte, é sempre o statement de um artista”, diz o realizador.

A 14 de Dezembro do ano passado, Sergei Loznitsa partiu para Kiev com uma câmara, um assistente de realização e um técnico de som. As manifestações na Praça da Independência, a Maidan, tinham começado a 21 de Novembro, quando o Governo ucraniano cancelou a cerimónia de assinatura de um acordo de associação com a União Europeia. Cerca de duas mil pessoas saíram à rua em protesto. A aproximação do país à Europa fora travada por exigências de Moscovo, por via da subserviência do presidente ucraniano, Viktor Ianukovitch. Era isto que os manifestantes pensavam, ao juntarem-se na praça todos os dias, em número cada vez maior.

Loznitsa, um realizador nascido na Bielorrússia mas criado em Kiev, sentiu desde logo que estava a fazer-se História, e decidiu filmar tudo, ainda que não soubesse exactamente para quê. Nem exactamente o que estava a passar-se, ou iria passar-se a seguir. Por isso optou por colocar câmaras fixas e usar ângulos abertos, que abrangessem o maior número possível de pessoas. Não escolheu nenhuma em particular, não seguiu personagens, não fez entrevistas. Não perguntou nada, porque sentiu que o momento era ainda virgem – não só de respostas, mas das próprias perguntas. Algo pré-existia a tudo isso, e era essa energia sem contornos que urgia captar, porque nada mais importava, tudo o resto seria espuma, subproduto de política mesquinha e passageira. Naquele momento, fosse o que fosse que viesse a acontecer, parecia evidente que, a fazer-se um filme, o enredo seria a ideia de revolução, e o protagonista o povo.

Loznitsa ficou dez dias. Depois teve de se ausentar e deu a um operador de imagem local instruções para gravar tudo, sempre com câmaras fixas. Durante dois meses, Serhiv Stefan Stetsenko captou imagens, que enviava diariamente para Loznitsa. O propósito, antes de ser o de montar um documentário, era criar um arquivo, diz Sergei Loznitsa ao Ípsilon, numa entrevista por e-mail. “Percebi imediatamente que o regime de Ianukovitch estava condenado, e que era uma questão de tempo até que o povo decidisse entrar em acção.”

De longe, o realizador foi seguindo os acontecimentos pela Internet, enquanto recebia diariamente as imagens do seu cameraman. No fim de Janeiro começou a editá-las, enquanto a acção ainda decorria na Maidan. E quando, no fim de Fevereiro, Ianukovitch fugiu do país, Loznitsa sentiu que a história estava concluída, e que tinha o seu filme.

A história, no entanto, continuava, como se sabe. Os manifestantes ocuparam o Parlamento, elegeram, no palco da praça, de braço no ar, um novo Governo, os grupos nacionalistas-fascistas assumiram grande protagonismo, a Rússia, com esse pretexto, ocupou a Crimeia e anexou-a, após um referendo considerado ilegal pela comunidade internacional, grupos separatistas pró-russos ocuparam edifícios públicos nas cidades do Leste da Ucrânia, desencadeou-se uma guerra civil.

ada disto está em Maidan, o documentário que em Portugal se estreou no DocLisboa e chegou ontem às salas. Nem isto, nem tudo aquilo que levava a prever, ou a temer, as consequências a curto prazo. Os sinais de que haveria reacção, os actos que muito provavelmente afectariam os equilíbrios regionais e mundiais. Tudo isso foi eliminado do filme, como se fossem impurezas. “Sou um realizador de cinema”, explica Loznitsa. “Não sou jornalista, nem analista político. A minha função é fazer cinema. Quero mergulhar o espectador na atmosfera da Maidan, dando-lhe a oportunidade de ‘experienciar’ os acontecimentos à medida que eles se desenrolam. Acho que os espectadores devem poder decidir por eles próprios, e chegar às suas conclusões.”

Acordar de um longo sono

Maidan mostra o dia-a-dia da praça, com as multidões gritando slogans e cantando, os vários líderes desfilando pelo palco, com os seus discursos mais ou menos empolgados, mais ou menos desconexos, mais ou menos desesperados ou absurdos. Ali se misturam cossacos, padres da Igreja Ucraniana, dirigentes de partidos, cantores, poetas, operários e donas-de-casa.

Na primeira parte do filme, o clima é de festa e esperança, apesar do frio e da neve. Uma Primavera como a da Praça Tahrir do Cairo, ou a do Parque Gezi, de Istambul, com tendas e comícios, jovens marchando com bandeiras e faixas, ou organizando experiências de democracia directa. Mas de repente há o ultimato do Governo, e o ataque da polícia. A praça transforma-se num campo de batalha, com chamas e destruição, luta feroz e muitos mortos. E enquanto tudo isto acontecia, Serhiv, o cameraman, não arredou pé. Sozinho ou com a ajuda de um companheiro, captou tudo de muito perto, arriscando a vida, mostrando a revolução por dentro, em toda a sua tensão e em todo o seu drama, com imagens magníficas e comoventes.

Tudo o que se vê são correrias, pedradas, tiros, bombas, gritos, sem que os discursos no palco sejam interrompidos, no seu desfilar patético de arengas partidárias, exaltações nacionalistas, ladainhas religiosas, poemas bucólicos ou patrióticos. Sempre planos abertos, sempre câmara fixa, sempre a multidão, a correr, a lutar, a morrer, a gritar “Viva a Ucrânia!” e “Glória aos Heróis!”, a entoar o hino nacional, ou uma velha canção popular de guerra, Plyve kacha po tysyni, em que um soldado confessa o medo de morrer em solo estrangeiro. Ninguém fala para a câmara. Nenhum protagonista emerge da confusão. Nenhuma cena é isolada do todo.

“Na minha perspectiva, o protagonista da Praça Maidan é o povo ucraniano”, argumenta Loznitsa. “Esta revolução não teve nenhum líder carismático, nem foi dirigida por nenhum partido político. Não teve nada a ver com políticos, nem com movimentos políticos, mas apenas com o povo, que não podia mais tolerar o regime, e saiu à rua para defender a sua dignidade e os seus direitos. Por isso eu quis mostrar as ‘massas’, a multidão que estava activa na Maidan. De diferentes ângulos, agindo em várias situações. Vi a minha nação acordar, depois de um longo sono, e quis capturar o momento desse acordar.”

As câmaras fixas, no entanto, fogem das imagens em que grupos com simbologia nazi, como o Pravi Sector (Sector Direito), desfilam pela praça e as avenidas, ou assumem o protagonismo das acções violentas contra a polícia. “Penso que os ‘fascistas’ da Maidan são uma invenção da propaganda russa. É claro que havia representantes de vários movimentos radicais, e eu observei-os, tal como observei todos os outros cidadãos. Mas se tivermos em conta que, nas eleições presidenciais de Maio de 2014, os candidatos dos partidos de extrema-direita obtiveram apenas 1,5% dos votos, percebe-se que a presença desses grupos é absolutamente marginal.”

Apesar da sua clara posição contra a influência e hegemonia russas na Ucrânia, o filme lembra, pelas suas escolhas narrativas e estilísticas, o cinema clássico soviético. Loznitsa reconhece a “analogia com Sergei Eisenstein, no seu filme A Greve, não por causa do estilo mas porque Eisenstein também faz das massas o seu protagonista”: “Como o meu herói era o povo, tive de usar planos abertos e longos e câmara estática, para apresentar as massas ao espectador.”

Em Maidan não surgem explicações ou interpretações. Tudo é mostrado em bruto, como que embrulhado apenas em verdade e beleza, e despachado, na sua pureza documental, por correio expresso para o futuro. Mas isso não faz do filme uma obra imparcial. Tal como no cinema propagandístico soviético, os recursos de estilo servem uma intenção épica e maniqueísta, em que nem por um momento se duvida de que lado da barricada se coloca o autor ou se deve colocar o espectador. Por outro lado, a simplicidade da intriga pode ser vista como uma admissão honesta das premissas, sem qualquer mistificação sobre o que está em causa, qual é a parte da história que se quer contar. O tema do filme é a luta do povo ucraniano contra a opressão, e neste núcleo não cabe mais nada. Não há ramificações nem consequências. A ocupação da Crimeia não faz parte desta história. Nem o papel dos grupos fascistas, ou da União Europeia, ou dos Estados Unidos. Tampouco a sinceridade e a nobreza dos actores individuais importa para este enredo. As suas motivações escondidas, as manipulações. Talvez por isso não haja protagonistas individuais. Eles não fazem parte deste filme. É possível que não façam parte da narrativa dos historiadores futuros, nem da memória da Ucrânia.

“Um documentário, como qualquer forma de arte, é sempre o statement de um artista”, diz Loznitsa. “O artista tem de ser verdadeiro para consigo próprio, a ideia que quer exprimir e a forma que escolhe para a expressão dessa ideia.”

Não é à arte que compete ser imparcial, ou talvez seja no seu compromisso específico que sobreviva toda a honestidade possível, pelo menos no tempo histórico que vivemos. “Não consigo pensar em nada que esteja mais longe da ‘imparcialidade’ e da ‘ética’ do que o mundo do jornalismo contemporâneo”, nota o realizador. “Em alguns territórios, como por exemplo a Rússia, os mass media tornaram-se numa arma de destruição maciça. Vivemos numa era em que a informação, ou a desinformação, sobre um determinado acontecimento surge antes do acontecimento propriamente dito. Sabemos como normais cidadãos russos, cujos cérebros foram lavados pela propaganda televisiva sobre ‘fascistas’ no Leste da Ucrânia, vão para lá para combater os fantasmas ‘fascistas’, e morrer de verdade.”