MAÏDAN: A CRISE NA UCRÂNIA POR SERGEI LOSNITZA

Por Kleber Mendonça Filho, www.cinemarcado.com.br, 23.05.2014

Fui ver Maïdan (Sessão Especial na Seleção Oficial), de Sergei Losnitza, que como alguns devem saber, é um realizador que eu conheço pessoalmente e que acompanho sempre com enorme interesse. Sergei já veio duas vezes ao Recife, uma delas no Janela, e ele segue construindo uma obra especial que denota uma fome elegante de imagem, e suas imagens estão sempre carregadas de um profundo significado histórico e, daí, político e humano. Foi na quarta-feira, dia em que tive a sensação de ter passado o dia inteiro em Kiev, na Ucrânia, já que na Semana da Critica foi apresentado Two Tribes, de Myroslav Slaboshpytskiy.

Para quem tem algum interesse por notícias internacionais, a Ucrânia passa atualmente por um período político e histórico dramático. O país quer desgarrar-se do passado e juntar-se à União Européia, quebrando laços históricos e culturais carregados de conflito, corrupção e tragédia via União Soviética e, depois da implosão do regime, há 20 anos, com a Rússia, que muitos ucranianos ainda chamam de mãe com clara entonação de madrasta.

A minha versão como observador não é partidária para essa região do mundo que tanto me fascina. Ela vem de amigos ucranianos e das entrelinhas das notícias, que têm sido fortemente embaralhadas pela máquina de propaganda de Vladimir Putin, da Rússia, como um Golem político.

Historicamente, a Rússia é a nação mãe que não parece querer deixar que a Ucrânia siga em frente como país e cultura independente. Putin nutre seu ímpeto de continuar exercendo poder sobre a região, como uma versão fantasma da URSS. Os conflitos dos últimos dois meses no leste da Ucrânia são outro foco de enorme tensão num país desestabilizado.

Isso tudo, claro, não é simples, por causa dos laços históricos via União Soviética, por questões de cultura e língua, e talvez por um karma puro que Putin ainda faz valer praticando movimentações de bullying como cortar, ou ameaçar cortar, o fornecimento russo de gás para a Ucrânia ou anexar de forma espetacularmente tranquila a região da Criméia, território ucraniano desde os anos 50.

Com o impeachment-expulsão-abandono do poder do presidente ucraniano Viktor Yanukovych, no início do ano, após uma vigília (“Maïdan”) apaixonada e tensa na Praça da Independência, no centro de Kiev, iniciada em Novembro do ano passado, a vigília teve um ponto baixo no ato de violência que deixou mais de 100 mortos em fevereiro, quando franco atiradores mataram manifestantes, e manifestantes também atacaram forças do governo, levando à saída de Yanulkovych, que ucranianos identificam como marionete de Putin.

Os registros documentais de Losnitza ao longo da sua carreira construíram um olhar poderoso sobre a sua cultura (nasceu na BelaRus, cresceu em Kiev, trabalhou em São Petersburgo, mora hoje na Alemanha). Maïdan segue coerente com esses registros, num estilo de observação que revelou-se tão forte em Blockade, que ele montou a partir de imagens feitas em São Petersburgo (a soviética Leningrado) durante o cerco da cidade por Hitler, durante a II Guerra Mundial, ou a Grande Guerra Patriótica na tradução via cultura e história soviética.

Losnitza foi a Kiev com câmeras de alta definição pequenas no início das mobilizações e observou com sua mínima equipe cenas da Praça da Independência, Maïdan. A vigília é percebida em imagens fortes de uma organização poderosa via milhares de manifestantes e uso constante de vozes ao microfone dos líderes do movimento sugerindo paz, um futuro melhor, um desejo político de mudança. Há a cozinha, onde lanches são preparados, e um espaço dedicado à preparação de cartazes e bandeiras azuis e amarelas, as cores da Ucrânia.

Esse hábil fotógrafo da realidade atual termina por fazer um filme impressionante em vários níveis. Sua abertura com um mar de rostos (todos em perfeito foco e qualidade moderna de vídeo de alta definição) tirando dezenas de chapéus e começando a cantar o hino da Ucrânia, a potencia da imagem e sua carga social e política são arrebatadoras e muito tocantes. O hino, aliás, fala de uma nação de cossacos, e olhando esses rostos, já tão presentes na filmografia desse realizador (o mercado em My Joy, o média metragem Portrait, a multidão de rostos celebrando o fim da Guerra em Blockade), percebemos como o rosto de um povo conta tão bem a história.

Por fim, é incrível que na era do iPhone e das imagens urgentes dos conflitos modernos de rua, de guerras e revoluções (os protestos no Brasil, a Guerra na Síria), Loznitsa tenha conseguido enquadrar essa ação que nos chega de maneira tão editada, e com tanto ruído via TV (ruído ideológico, de contra-informação e tecnicamente) como um filme de cinema sobre algo que está acontecendo nesse momento. Maïdan entrou em cartaz ontem nos cinemas franceses.